domingo, 7 de agosto de 2011

Águia Dourada (2008)

Tem dias que eu rezo pra que aconteça alguma coisa diferente, porque depois de tanto tempo na mesma correria, até aquele cagaço que tu sente cada vez que vai resolver um trabalho pesado, daqueles que te deixa churingado por uma semana, acaba ficando monótono.

 Lá fora, a onda de calor empurra as pessoas para o chão e as secam pra a terra reabsorver toda a água. E,, suando, com o braço engordurado de suor em cima do meu bloco de notas, estou focado na lâmpada fraca de 60 velas pendurada a 30 centímetros do teto faz vários minutos; é a coisa mais luminosa que me vem à mente. Meus olhos apresentam diversas manchas escuras psicodélicas. Meus outros três camaradas – Agiota, Teobaldo e OTAN, cada um no seu quadrante da saletinha, ficam trocando umas caretas e umas bufadas. Já tá desse jeito faz uma meia hora; batidas de caneta, coçadas de saco, fungadas, catarradas, pele marcada de quina de escrivaninha. Fazia um tempo que a gente não ficava com um mínimo de estresse mental no trabalho. Um cara veio aqui e pediu pra gente resolver um negócio urgente pra um figurão aí. Não falou o que era, só que ele era importante e que contava com a segurança do nosso serviço. Algum idiota recomendou a gente pra esse figurão, só pode ser. O pombo dele tá ali fora, na porta, com um celular na mão, pronto pra confirmar o contrato. Mas Agiota sabe das coisas:

- Sem chance. A gente precisa de mais grana mas se a gente entrar nessa a gente toma no cú bonito.

Essas coisas de contrato são complicadas. O trabalho que o figurão quer que a gente faça não é do bom. Normalmente não se aceita bisbilhotagem; é cilada, serviço muito perigoso pra pouco dinheiro. É tudo uma questão de confiança e eu tenho orgulho de dizer que a nossa tá cem por cento. Aqui no papel diz que o contratante é um tal de Águia Dourada. Ele deve achar que somos uns piazotes idiotas. Alguém tem que avisar ele que tem gente que trabalha só com isso, eu mesmo poderia indicar vários. Agora, quem indicou a gente pro contratante, esse sim merece um trato. Minha vontade é de sair ali no corredor e bater no piá dele com meu furador de papel do Paraguai. Mas deixa pra lá, o coitado nem tem culpa da estupidez dos outros.

- A gente não precisa de grana? Tamo morto, rapaziada.

O pau-mandado bate três vezes na porta. Acho que o tal do Águia tá com pressa. Uma hora pro outro dia e ele quer o negócio feito pra ontem. Mas não vai adiantar insistir, tanto que nem li o resto do contrato. OTAN, meu caçula, faz a primeira cara de reprovação. Teobaldo negativa com a cabeça. Porpeta não gosta, mas concorda.

- Cuzões.

Porpeta cospe uma tampa de caneta azul que eu nem sabia que tava mastigando. Ele vai dispensar o moleque, mas demora pra levantar pois já deve tá nos seus cento e cinqüenta quilos. Cada passo até o destino parece bem doído. Ele tira um lenço do bolso e limpa o sebo do rosto antes de abrir a porta. OTAN está esfregando o olho e Agiota tá arrumando suas gavetas, então eles não percebem que o mensageiro não tá mais ali; eu vejo os olhos do Porpeta procurando e o encontrando em algum lugar longe do casebre.

- Seus velhos cabaços! Já falei pro Águia Dourada que cês aceitaram! Tão fudidos!

Sabia que ia acontecer uma merda assim, a gente sente no ar.

Vamos foder com a vida desse Águia!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Lei do Sol

Bateu um arrependimento por ter deixado a farda abandonada no alojamento. Ninguém vai me apurrinhar por isso, ninguém tem cacife. E também porque nem vou pegar ela de novo. Preciso lembrar de agradecer o Beronhão e o Salmão Fosfeiro por terem me ajudado a pegar a manha dos caras que vou destruir. Eles conseguiram a informação que estariam aqui. Andei pra cacete, mas cheguei.

Sol infernal. Já é o sétimo sorvete e tá começando a encher de abelhas aqui em volta. Tão atrasados.

Beronhão esqueceu como se desmonta o fuzil em plena operação aqui na ilha. Também esqueceu de trazer roupas de baixo. Salmão era maluco, só ficava falando do bisavô menchevique. Ashkenazi. Baryshnikov. Sei lá. Sofriam reprimendas dos colegas, na sala de aula, no alojamento, dentro do comboio, mas eram os mais fodidos. Na hora de dar porrada, deviam ver o rosto de todos que eles não gostavam pareidolando nos incisivos careados dos infelizes que a gente prendia.

Começo a balançar os braços igual um aloprado pra espantar as abelhas. É percebendo que estou com a mão melada de açúcar e a pressão baixando que logo vejo a caminhonete e a van dos traficantes. Eram elas mesmo. Confere caminhonete velha azul e enferrujada. Confere van com adesivo rasgado de bebida alcóolica. Não sei daonde eu tinha notas de dólar na minha carteira, mas dou elas pro sorveteiro e vou indo na direção dos pulhas. Os caras estão todos muito felizes. Pode ser que, até agora, tudo esteja indo de vento em popa pra negócios.

- Obrigado Salmão e  Beronhão, valeu mesmo.

Salmão podia ser louco, mas carregava sempre sua pederneira de magnésio da sorte. A gente não tinha essas coisas porque falta de lâmpada não era problema no pelotão. Mas, Salmão fosfeiro acender uma fogueira dentro dum barril de latão no meio da rua era um evento e tanto. Tinha civil que ia matar galinha só pra botar ali. Salmão assistia muitos documentários sobre sobrevivência urbana e na selva e tinha uma boa memória.
Sei lá quantos caras tem ali, mas pelo menos dois  que estão chapados perto da porta da van eu garanto. Minha pressão ainda tá baixa.

- Daê seu filho da puta!

Dou um gancho com as duas mãos no primeiro moleque com chapéu, uma em cada costela. Espero ter quebrado uma porção delas. Não deu pra ouvir porque o barulho das costas dele batendo na lataria foi mais forte. O amigo dele tenta me pegar pelo pescoço e eu faço a mesma coisa. O coitado é um magricelo de merda, seguro o pescoço dele cravando os dedos e com a outra mão dou um petardo na testa. Minha pressão sobe e a aorta coça.

Fazia um tempo que eu queria pegar esses caras. Eu e o Beronhão. Beronhão era malandro, soube desde antes da cooperação com a polícia que traficante aqui deita e rola na nossa frente. Mas Beronhão era maquiavélico: queria explodir um bailão que a corja frequentava sábado à noite.

Outros aparecem correndo na areia, contornando o caminhão. Vou pra frente de batalha de batalha e literalmente dou um murro na ponta de uma faca. Mas quero que seja o único murro perdido. É tanta porrada que nem posso descrever. É com muita ira que desmonto mais três sangrando no chão. Sou um cara jovial.

Nunca achei que esse lance de cólera fosse pra mim.

Um amontoado de sangue e areia. Dois caras estavam praticamente desfalecidos. O resto tava se arrastando. Não consigo parar de salivar, ranger os dentes e olhar praqueles epiléticos convulsionando que não se importavam mais em sentir dor. Quero dar mais um na cabeça, mas já tá tudo muito feio ali. Não sei se o que eu fiz com eles vai arriscar minha vida daqui pra frente. Provavelmente sim, mas já estou convencido de que foi necessário.

Salve um pro Padre Magnum. Botinada, estilo cobrança de pênalti, bem no queixo do que parecia estar mais acordado.

- Puta merda Papo, que tu fez cara?

Dois meses atrás arranjei problemas com um cara da inteligência francesa. Minha aorta coça menos com essa interrupção. Salmão e Beronhão são dois caras que irei sentir falta. Pra que  saber se as armas vem da Colômbia ou das Maras?

- Se foder, se ninguém faz o serviço, podexá que eu faço.

Nunca vi esse recruta.

- Tá fudido cara! Não digo nem pelo pelotão! Os cara de cima vão te mandar embora.


Dois almofadas na cadeira que não conseguem nem capturar uns farrapeados que repassam armas não são rebaixados.

- Eu vou é botar isso no caminhão e despejar na frente do acampamento. Me ajuda aqui.

- Cara, se não tivesse de farda eu te ajudaria! Não me meta nos seus esquemas! Vai me foder junto!

Medalhinha. Bandeirinha

- Seu bosta!

Ameaço dar um soco e o cara vira de costas pra se proteger. Botinada no cu e cai chorando.

- Filho da puta! Isso é contra a lei!

Será que o sorveteiro viu tudo?

- Contra a lei é você bisbilhotando aqui seu merda!

Queria escutar a resposta mas não consigo segurar mais uma bicuda no fioto. Ele tenta proteger com as mãos e acaba com oito falanges quebradas.

E que se foda. Tamo longe do acampamento e do pelotão. Ali no caminhão tem uma pá e ali na areia logo vai ter seis buracos pra cobrir até o pescoço.

Nove da manhã, tempo de sobra.

A Rua dos Relâmpagos (2008)

Quando meu pai teve de se esconder de uns caras que nos ameaçaram de morte, fui morar sozinho com minha mãe. Musca vinha nos visitar de vez em quando, mas geralmente ficava apenas algumas horas e na maioria das vezes eu estava estudando. Eu tinha dez anos. Minha casa costumava ser um pequeno e bonito apartamentozinho num conjunto residencial que ficava do lado de um riacho. Era bom escutar o barulho da naturezal antes de fazer qualquer coisa no dia, algo que não fosse uma manada de automóveis numa pressa frenética. Depois, fui viver num cubículo de alvenaria chapiscado de cimento que não tinha telhado nem janelas. Somente uma lona plástica preta nos protegia, presa com pregos nos tijolos. Tudo era em um cômodo só, até o banheiro. Apesar disso, eram os vizinhos que costumavam incomodar.  A maioria dos moradores daquela quadra eram mulheres viúvas de meia idade. O problema mesmo era o alcoolismo. Às vezes, ou quase sempre, passavam a madrugada inteira bebendo conhaques baratos e xingando umas as outras. Eu era a única criança nas redondezas e as opiniões sobre isso se dividiam: algumas me olhavam tão feio que dava um frio na barriga e vontade de sair correndo; outras eram legais, me ofereciam doces e outras comidas. Também tinha uma quarentona tarada que me oferecia algo que eu não compreendia na época, mas mãe, Joana 21, já havia sido advertida da perversão e nunca deixou eu ir na dela. Mas a única mulher além da minha mãe em quem eu tinha certeza que poderia confiar era a Beata Melotron. Beata tocava violão na igreja.


- Sabe Papo, se eu morrer sem fazer jus ao meu nome de novo, eu juro que vou cantar músicas feias lá no céu. Com muitos palavrões. Alguma sugestão de palavrões?

Diversão garantida.

Minha mãe agora cuidava da igreja. Ela passava muito tempo rezando para o meu pai. Todos na igreja diziam todo dia que era a última igreja católica do Brasil. Após a recuperação de matemática, minha mãe me levou para lá. Precisava de ajuda para organizar as mesas pois após a missa; cada pessoa traria comes e bebes e a Beata se encarregaria da música. Eu me decepcionei, não houve muitas coisas para saciar minha fome, mas tinha muitos chás diferentes.


- Mãe, - corri até ela, tremendo – mais um trovão!

Um intensa luz branca penetra na janela em um estrondo quebra umas vidraças. O teto ganha uma coloração amarelo-alaranjada e o ar um cheiro de lona queimada.


- Mais um relâmpago, neném, só isso.

Presenciei uma cena horrível cerca de um ano antes. Eu estava voltando do colégio para almoçar e andava junto com minha mãe; nosso deslocamento era tranqüilo e em linha reta; nossa casa, a igreja e o colégio ficavam na mesma rua. Nós conversávamos alegres sobre a possibilidade de irmos passar uns dias nas praias lindíssimas do nordeste, de onde ela veio. Subitamente, bem do nosso lado, um carro estacionado no outro lado da rua emitiu um clarão e depois pegou fogo; o barulho me deixou surdo por alguns minutos, além de muita dor nos dois ouvidos e uma sensação de ardência em minha bochecha direita. Desatei a chorar; Joana 21 me pega no colo e sai correndo até nosso barraco. Ela me consola dizendo que era apenas um relâmpago, e que relâmpagos costumar cair em cima das coisas, principalmente de árvores. Ela me beijava e me abraçava com muita freqüência, o que auxiliou na minha recuperação.

- Vamos para casa dormir, já é tarde. Amanhã você tem escola.

Algumas lágrimas escorriam do meu olho e eu tremia muito. Ela pediu para Melotron fechar a Igreja, pegou-me em seus braços e inclinou minha cabeça para baixo, deixando-a entre o ombro e o pescoço, impedindo minha visão. Andava em passadas largas. Chegando lá, deitei na cama e ela começou a me fazer cafuné. O sorriso dela é contagiante; eu sorri junto.


- Sua mãe vai te contar uma coisa que vai te deixar mais feliz – ela pegou em minha mão e a colocou em sua barriga – você vai ter um irmãozinho...ou uma irmãzinha!


- Tá grávida, mãe?


- Sim – acenou com a cabeça – que tal você escrever uma carta pro seu pai contando essa novidade?

Aceitei. Ela me entregou um lápis e um papel e então comecei escrever deitado no chão. Joana sentou no sofá e logo cochilou. Eu tentei pensar em frases legais, mas não me vinha nada à mente. Acabei dormindo. O despertador tocou de manhã e acordei com um pulo. Joana estava na mesma posição. Comecei a olhá-la fixamente. Ela era linda, alta, cabelos negros, com traços do rosto indígenas mas com sobrancelhas alinhadas holandesas. Mas estava pálida, com os lábios descoloridos e tinha emagrecido. Chacoalhei seu ombro e ela despertou suavemente. Arrependi-me de tê-la acordado; o cansaço era nítido.


- Eu vou sozinho, mãe, descansa aí.

Preparei minhas coisas e fui, sem comer nada. A comida era pouca e eu queria que minha mãe se alimentasse direito; afinal, depois de saber que ela esperava um bebê, sabia que ela precisava mais do que eu. Andando pela rua, o cheiro ruim de queimado ainda me incomodava. Não queria ver o veículo em chamas, mas não resisti e fui até a ponta da calçada. Fiquei atônito. Havia um corpo no chão próximo a ele. Comecei a chorar de novo; mas não resisti à curiosidade e fui até lá, lentamente. Minha visão fechou para o resto do mundo. Era uma criança e eu o conhecia. Ele vendia balas de menta no sinaleiro, enquanto os motoristas esperavam pelo sinal verde. Seu corpo despido mostrava padrões de vermelho sangue e um preto quente de carvão.


- Sai daí, moleque! – alguém gritava do outro lado da rua.

Senti náuseas. Desviei o olhar para a caixa de balas, que estava inteira e cheia. Não conseguia respirar. Por impulso, peguei as balas e coloquei em minha mochila. Joana agarrou em meu pulso e me puxou para a calçada. Não conseguia ouvir nada do que ela dizia. Fui até a escola, mas na sala de aula só conseguia pensar na horrível cena que acabara de ver. Por estar muito preocupada, mãe foi me pegar na porta da sala.


- Neném, - ela falou com uma voz delicada - vou te deixar com a Beata hoje à tarde porque vou pro médico.


- Volta logo.

Lá na casa da Beata, comi como nunca na vida. Ela estava afinando seu violão e eu comecei a escrever a carta para o meu pai novamente. Havia uma mulher lá junto, uma daquelas chatas, mas era parceira da Beata. Minha preocupação com Joana crescia. Só conseguia pensar nela.


- Você sabe o que é que minha mãe tem?


- Ela não tem comido direito, - respondeu Melotron – agora que ela sabe que está grávida, vai ser um problema.


- Seu pai não tem mandado dinheiro, - a inconveniente balzaquiana interrompe – e tudo o que ela ganha de doação na igreja é pra dar de comer pra você. Você devia trabalhar pra ajudar ela, vagabundinho.

Assustei-me. Ninguém havia se referido a mim desse jeito antes. Seja lá qual fosse a intenção dela, suas palavras surtiram efeito. Passei o resto do dia pensando que deveria arranjar um jeito de ganhar dinheiro para ajudar minha mãe. Finalmente ela veio me buscar. Notei suas olheiras desta vez. Lá em minha cama, enquanto preparava o material do outro dia, lembrei da caixa de balas que estava no fundo de minha mochila.

Durante duas semanas eu pulava o muro da escola e ia vender balas no sinaleiro. Quando metade da caixa se foi, coloquei o dinheiro em um envelope improvisado com uma folha de caderno e deixei debaixo do travesseiro da minha mãe. Fiquei feliz por ter conseguido, mas logo ela descobriu; além de estranhar o dinheiro, certo dia, uma das freqüentadoras da Igreja disse que tinha me visto trabalhando na rua (aparentemente, na sala de aula e na escola, ninguém se importava com minha ausência). Sua reação foi o contrário do que eu esperava.


- Neném, - ela contém um choro - sua mãe está muito doente. Seu pai deve estar com problemas, não têm mandado dinheiro pra gente. Seu pai estaria orgulhoso. Eu também estou.

Ela retirou mais duas caixas daquelas balas, entregou pra mim e pranteou com o rosto afundado na almofada. Odeio ver ela chorar; peguei as caixas e fui para a rua. Trabalho dia e noite, mal consigo dormir. O serviço é bem cansativo, mas aos poucos vou conseguindo arrecadar um dinheiro. Guardava tudo no bolso. Agradecia muito cada drops vendido; gostava da idéia de lembrar de cada um dos rostos que sorriram para mim. Mas não era sempre assim; pessoas mal educadas às vezes mal levantavam o vidro. Em cinco dias, consegui todo o dinheiro para minha mãe. Eu mal conseguia enxergar, minhas energias estavam exauridas. Minhas pernas tremelicam e eu quase caio no chão, mas Joana pula da cama e me abraça muito apertado.


- Desculpe, meu filho, desculpe, desculpe sua mãe....eu nunca vou me perdoar... amanhã você volta pra escola, mamãe vai sarar e tudo vai ficar bem.

No outro dia eu estou na escola de novo. A professora, quase sem emoção, diz que eu estou de recuperação em todas as matérias pois faltei à semana de provas. Não liguei, aquele mundo não fazia mais sentido para mim. Na hora do recreio, roubei duas caixas de doces da cantina, pulei o muro e fui vender novamente. Achava que logo a gente iria precisar de mais dinheiro, caso meu pai não voltasse. Estava vendendo bem, várias vezes encontrava pessoas conhecidas. No terceiro dia, minha mãe ficou sabendo e ficou apavorada. Uma das vizinhas idiotas passou por mim na rua e gritou como uma louca.


- Moleque safado, tua mãe não quer te ver mais fazer isso! Para com isso e vai lá ver ela!

Não quis sair até que tivesse vendido tudo. Era fim da manhã, quase horário de saída do colégio e caia uma leve garoa. Em um momento, dois carros em alta velocidade furaram o sinal e quase me atropelaram. Meia hora depois, quando o sinal estava prestes a abrir e eu já tinha vendido todos os doces, presenciei mais um daqueles relâmpagos. Eu estava de costas, senti os músculos do meu pescoço amortecerem e fui jogado em direção a uma árvore. Minha mochila arrebentou e o material escolar se estraçalhou. Juntei o que pude e, com os olhos arregalados, corri para casa, sem olhar para trás. Cheguei morto de cansaço; havia quase uma semana que não comia direito e isso começava a se refletir em minha disposição. Carregava em meus braços os livros do primário dentro de mochila rasgada; os lápis, canetas e uma borracha enfiados no único bolso direito da calça do uniforme. Começou a chover muito. Parei na frente da minha casa e vi o desastre: o plástico do teto havia cedido. Achei tudo uma bela merda; larguei o material no chão que se espatifou na lama, tirei as coisas do meu bolso com uma raiva incontrolável e as arremessei em cima dos livros. Comecei a chorar. Ajoelhei no chão e senti a lama fria encharcar minhas canelas.  Havia algo errado. Sempre que chovia, minha mãe me esperava com um guarda-chuva ou no portão do colégio ou, quando não dava tempo, na porta de casa. Gritei por ela até meus pulmões arderem. Não houve resposta. Eu quase havia sido morto e queria estar com a única pessoa com a qual eu me sentia protegido de verdade. A sensação que eu tinha, lá na rua dos relâmpagos, é que nada mais importava, desde que ela estivesse lá.

Mas não estava.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Grandes Discursos do Séc. XXI (2009)

Em uma de minhas primeiras conversas com o velhote Magnum, fiquei surpreso ao saber que os Volvos não foram totalmente esquecidos pela literatura; pelo menos não pela histórica. Mostrou-me uma cópia de um livro editado pela Biblioteca Pública chamado “Grandes Discursos da Primeira Metade do Século XXI” onde,  quase que miraculosamente, havia um trecho de um discurso proferido por Musca. Não era um livro muito grande, em sua maioria consistia em discursos usuais de burocratas do Brasil inteiro sobre investimentos do estado em educação e saúde ou grandes empresários de multinacionais vangloriando sua vinda ao país, mas entre todas essas grandes exposições de dezenas de páginas, é possível achar outras pequenas pérolas. Tendo emprestado o livro, tirei um dia apenas para ler as reclamações públicas de professores de escolas, manifestações de diretórios acadêmicos e registros revoltosos de líderes comunitários. Sobre o conteúdo destes, não me espanta que as reivindicações sejam quase as mesmas, sempre envolvendo pedido de verbas e conscientização por parte dos líderes políticos; o velho clichê que nunca teve uma funcionalidade satisfatória. Ao final do dia, cheguei até o um quarto de página onde residia o discurso de Volvos e, após ler, constatei que, ao meio de tanta “consciência social”, as palavras dele pareciam romanticamente vazias e utópicas. Entretanto, levando em consideração o que foi de fato atingido, posso afirmar com absoluta certeza que a importância prática dos discursos é inversamente proporcional à demonstrada no livro. Quando devolvi a coletânea para o velho, perguntei se foi por influência dele que as palavras de Papo haviam sido selecionadas para a publicação, ao que me respondeu indignadamente que este trecho especificamente não havia sido escrito por ele; os créditos no capítulo final sobre as referências não traziam o nome Musca Volvos – na verdade, não havia referência alguma. Contestando minha falta de percepção do contraste de linguagem existente entre os manuscritos agora em minha posse e o discurso, revelou-me que foi ele mesmo que escreveu - pedido pessoal em um de seus encontros com Volvos - o trecho publicado, mas não quis que seu nome fosse citado pois isto poderia, aviso dos promotores da justiça, acarretar em exoneração do seu cargo na biblioteca. Falou-me novamente da ‘sanguinária’ acidental discussão de Musca com o anterior louvado secretário da cultura, da repulsa dos literatos à figura do agressor e a posterior emenda constitucional legislando a proibição de publicações relacionadas aos Volvos. Não poderia, por ser um fiel adepto da filosofia ‘Volvesca’, deixar de subverter a montagem do livro da qual a sua biblioteca fez parte e, dentro de certos limites, remeter, ainda que sutilmente e com simbologias histórico-literárias, à algo muito maior que foi a conjuração dos Volvos. Antes de esclarecer devidamente todo o contexto envolvido no trecho publicado (inclusive com um manuscrito contendo a transcrição integral do discurso gravado em áudio digital), recitou epicamente e de cor sua parte no discurso enquanto recordo todas as palavras.


“(...) Concordo que em nossa época iniciou-se um tempo de decadência moral, onde o pai ensina o filho a baixar a cabeça para os vampiros burocratas e seus acessores mercenários, estes, ascendentes dum estilo de vida superficial travestido da mais insonora e ignorante felicidade, uma ilusão inspirada puramente na covardia e fracasso ante à honra gentil, se comparados à verdadeira e altruísta raça forte brasileira. Ao inferno as novas mães por propagar filosofias centristas das avarentas e desdenhosas personalidades anglo-francesas, onde as pessoas não são mais capazes de manter sua palavra, traindo sua própria sinceridade sob o infame capuz dos que perecem para o próprio medo e que usam, dissimuladamente, releituras egoístas sobre o livre-arbítrio. Foi preciso uma vida de andanças pelas cidades, sertões, florestas, pedras e areias para encontrar e conectar os homens de verdade, cérebros que carregam a messiânica personalidade feroz e generosa do insurgente mulato e do tupinambá, guerreiros cuja honra remete aos valentes fidalgos sebastianistas, antigos, porém contemporâneos, pois seu coração é inexpugnável e belo como um colete de aramida e ouro, bombeando o sangue da história e do respeito por ela’ (...)”.

domingo, 10 de abril de 2011

Espinho na Medula (2009)

Num desses dias frios e chuvosos, num boteco de beira de estrada, um velho conhecido e companheiro acadêmico, o Pé-da-Maria, contava que conheceu o Musca quando ele dava cursos relâmpagos pros cuzidões sertanejos, bem ali naquele lugar, de como dar um murro bem dado na fuça dos ricardões que traçavam suas senhoras. Pé-da-Maria, já bem afoito por causa da pinga, pediu emprestado minha jaqueta de couro pra se parecer com meu pai e logo começou a se movimentar igual um boxeador com o tornozelo quebrado. O dono do boteco, o careca e obeso Saco-De-Rola, havia chamado para se juntar a nossa bebedeira alguns outros fregueses ainda vivos que também conheceram Musca e fizeram o famoso curso: o “andarilho barbeado” Roque Faroleiro, “o carteiro do azar” Iossário da Vinte-e-Dois,  “o bugre pintado” Quintus Deodato Junior e o  “cigano das três netas boas” Romano Dinheiro. todos já em seus octogenários. Meu comparsa Porpeta Bellucci, que havia sido o co-ministrante do curso, integrava a roda dos mamados juntamente com o citadino banqueiro Teobaldo Agiota e o catequizador cromado Padre Magnum . A voz atenuada e a tônica esticada no final das frases que Pé-da-Maria soltava durante a encenação fazia todo mundo se contorcer de rir nas cadeiras.

- É assim que tu dá um soco em alguém. O primeiro passo é mentalizar! Imagina e sinta um espinho do tamanho daquela caneta na orelha do Rola penetrando na tua medula oblonga. Pra quem não sabe o que é esse trocinho eu vou dizer: é um órgão lá no pé do cérebro e que faz um fio com a coluna. Depois, tu força todos os músculos do pescoço e da mandíbula enquanto já vai fechando a mão. Tu gira a cintura pro lado da mão que vai dar o presente pro filho da puta, usa o outro braço pra preparar terreno e se apóie com um pé só na meia-ponta, dobrando o joelho. Comece a cair pra frente, perca a visão, grite que nem um burro atolado e despeje tua ira como se ele tivesse trepado com tua mãe e tua irmãzinha pequena. Não esqueça de usar o peso do corpo como carga adicional! Dá direto na mandíbula um adeus pro ricardão!
             
Era final de tarde no pé da serra e a chuva havia começado após um dia inteiro de tempo fechado. Tudo o que tínhamos conversado até agora, após a performance de Pedro, era sobre armas antigas, desventuras com bebidas alcóolicas, putarias e chás medicinais. O churrasco de variados cortes de Saco de Rola foi apagando o efeito entorpecente de várias cervejas e doses de cana fermentada. Todo mundo baixou os ânimos em suas cadeiras e o saudosismo não tardou a chegar com uma certa melancolia.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Pegadas de Sangue

Em junho de 2008, este que vos escreve daria início a um projeto de "malhação" literária policial chamado 'Papo Volvos'. Desde então, Papo já passou por quatro layouts, duas mortes e três ressurreições. Bom, por quase um ano, nada foi publicado, mas muita água rolou por baixo da ponte: diversas mudanças de conceito, gênero, parcerias mal sucedidas, sugestões de personagens, pedidos de retorno e fatos que marcaram a história do Brasil e do mundo. Volto a publicar, pois receio estar mais maduro e seguro quanto ao conteúdo literário. Começo com uma informação peculiar: o que nunca revelei nestes quase três anos - pelo menos não por completo, é que, antes de se tornar um personagem, Papo Volvos seria uma série de metaficções noir em primeira pessoa, sem conexão mandatória entre um texto e outro. O primeiro texto publicado foi o único nesta linha, apesar de já carregar o código genético da evolução que viria pela frente.


É com esta postagem e com um novo visual que inauguro a versão 2011 de Papo Volvos. Próximas postagens do autor incluem a origem do nome, influências da música e análise do primeiro texto publicado.


PS.:  Layouts antigos são: o preto e branco com fotos em vermelho; o bege com uma gravura de um homem com cabeça de águia; o oliva com uma diluição de sangue; o abacate com placa de rodoviária.


Pé na porta e soco na cara,


Nelson