Quando meu pai teve de se esconder de uns caras que nos ameaçaram de morte, fui morar sozinho com minha mãe. Musca vinha nos visitar de vez em quando, mas geralmente ficava apenas algumas horas e na maioria das vezes eu estava estudando. Eu tinha dez anos. Minha casa costumava ser um pequeno e bonito apartamentozinho num conjunto residencial que ficava do lado de um riacho. Era bom escutar o barulho da naturezal antes de fazer qualquer coisa no dia, algo que não fosse uma manada de automóveis numa pressa frenética. Depois, fui viver num cubículo de alvenaria chapiscado de cimento que não tinha telhado nem janelas. Somente uma lona plástica preta nos protegia, presa com pregos nos tijolos. Tudo era em um cômodo só, até o banheiro. Apesar disso, eram os vizinhos que costumavam incomodar. A maioria dos moradores daquela quadra eram mulheres viúvas de meia idade. O problema mesmo era o alcoolismo. Às vezes, ou quase sempre, passavam a madrugada inteira bebendo conhaques baratos e xingando umas as outras. Eu era a única criança nas redondezas e as opiniões sobre isso se dividiam: algumas me olhavam tão feio que dava um frio na barriga e vontade de sair correndo; outras eram legais, me ofereciam doces e outras comidas. Também tinha uma quarentona tarada que me oferecia algo que eu não compreendia na época, mas mãe, Joana 21, já havia sido advertida da perversão e nunca deixou eu ir na dela. Mas a única mulher além da minha mãe em quem eu tinha certeza que poderia confiar era a Beata Melotron. Beata tocava violão na igreja.
- Sabe Papo, se eu morrer sem fazer jus ao meu nome de novo, eu juro que vou cantar músicas feias lá no céu. Com muitos palavrões. Alguma sugestão de palavrões?
Minha mãe agora cuidava da igreja. Ela passava muito tempo rezando para o meu pai. Todos na igreja diziam todo dia que era a última igreja católica do Brasil. Após a recuperação de matemática, minha mãe me levou para lá. Precisava de ajuda para organizar as mesas pois após a missa; cada pessoa traria comes e bebes e a Beata se encarregaria da música. Eu me decepcionei, não houve muitas coisas para saciar minha fome, mas tinha muitos chás diferentes.
- Mãe, - corri até ela, tremendo – mais um trovão!
Um intensa luz branca penetra na janela em um estrondo quebra umas vidraças. O teto ganha uma coloração amarelo-alaranjada e o ar um cheiro de lona queimada.
- Mais um relâmpago, neném, só isso.
Presenciei uma cena horrível cerca de um ano antes. Eu estava voltando do colégio para almoçar e andava junto com minha mãe; nosso deslocamento era tranqüilo e em linha reta; nossa casa, a igreja e o colégio ficavam na mesma rua. Nós conversávamos alegres sobre a possibilidade de irmos passar uns dias nas praias lindíssimas do nordeste, de onde ela veio. Subitamente, bem do nosso lado, um carro estacionado no outro lado da rua emitiu um clarão e depois pegou fogo; o barulho me deixou surdo por alguns minutos, além de muita dor nos dois ouvidos e uma sensação de ardência em minha bochecha direita. Desatei a chorar; Joana 21 me pega no colo e sai correndo até nosso barraco. Ela me consola dizendo que era apenas um relâmpago, e que relâmpagos costumar cair em cima das coisas, principalmente de árvores. Ela me beijava e me abraçava com muita freqüência, o que auxiliou na minha recuperação.
- Vamos para casa dormir, já é tarde. Amanhã você tem escola.
Algumas lágrimas escorriam do meu olho e eu tremia muito. Ela pediu para Melotron fechar a Igreja, pegou-me em seus braços e inclinou minha cabeça para baixo, deixando-a entre o ombro e o pescoço, impedindo minha visão. Andava em passadas largas. Chegando lá, deitei na cama e ela começou a me fazer cafuné. O sorriso dela é contagiante; eu sorri junto.
- Sua mãe vai te contar uma coisa que vai te deixar mais feliz – ela pegou em minha mão e a colocou em sua barriga – você vai ter um irmãozinho...ou uma irmãzinha!
- Tá grávida, mãe?
- Sim – acenou com a cabeça – que tal você escrever uma carta pro seu pai contando essa novidade?
Aceitei. Ela me entregou um lápis e um papel e então comecei escrever deitado no chão. Joana sentou no sofá e logo cochilou. Eu tentei pensar em frases legais, mas não me vinha nada à mente. Acabei dormindo. O despertador tocou de manhã e acordei com um pulo. Joana estava na mesma posição. Comecei a olhá-la fixamente. Ela era linda, alta, cabelos negros, com traços do rosto indígenas mas com sobrancelhas alinhadas holandesas. Mas estava pálida, com os lábios descoloridos e tinha emagrecido. Chacoalhei seu ombro e ela despertou suavemente. Arrependi-me de tê-la acordado; o cansaço era nítido.
- Eu vou sozinho, mãe, descansa aí.
Preparei minhas coisas e fui, sem comer nada. A comida era pouca e eu queria que minha mãe se alimentasse direito; afinal, depois de saber que ela esperava um bebê, sabia que ela precisava mais do que eu. Andando pela rua, o cheiro ruim de queimado ainda me incomodava. Não queria ver o veículo em chamas, mas não resisti e fui até a ponta da calçada. Fiquei atônito. Havia um corpo no chão próximo a ele. Comecei a chorar de novo; mas não resisti à curiosidade e fui até lá, lentamente. Minha visão fechou para o resto do mundo. Era uma criança e eu o conhecia. Ele vendia balas de menta no sinaleiro, enquanto os motoristas esperavam pelo sinal verde. Seu corpo despido mostrava padrões de vermelho sangue e um preto quente de carvão.
- Sai daí, moleque! – alguém gritava do outro lado da rua.
Senti náuseas. Desviei o olhar para a caixa de balas, que estava inteira e cheia. Não conseguia respirar. Por impulso, peguei as balas e coloquei em minha mochila. Joana agarrou em meu pulso e me puxou para a calçada. Não conseguia ouvir nada do que ela dizia. Fui até a escola, mas na sala de aula só conseguia pensar na horrível cena que acabara de ver. Por estar muito preocupada, mãe foi me pegar na porta da sala.
- Neném, - ela falou com uma voz delicada - vou te deixar com a Beata hoje à tarde porque vou pro médico.
- Volta logo.
Lá na casa da Beata, comi como nunca na vida. Ela estava afinando seu violão e eu comecei a escrever a carta para o meu pai novamente. Havia uma mulher lá junto, uma daquelas chatas, mas era parceira da Beata. Minha preocupação com Joana crescia. Só conseguia pensar nela.
- Você sabe o que é que minha mãe tem?
- Ela não tem comido direito, - respondeu Melotron – agora que ela sabe que está grávida, vai ser um problema.
- Seu pai não tem mandado dinheiro, - a inconveniente balzaquiana interrompe – e tudo o que ela ganha de doação na igreja é pra dar de comer pra você. Você devia trabalhar pra ajudar ela, vagabundinho.
Assustei-me. Ninguém havia se referido a mim desse jeito antes. Seja lá qual fosse a intenção dela, suas palavras surtiram efeito. Passei o resto do dia pensando que deveria arranjar um jeito de ganhar dinheiro para ajudar minha mãe. Finalmente ela veio me buscar. Notei suas olheiras desta vez. Lá em minha cama, enquanto preparava o material do outro dia, lembrei da caixa de balas que estava no fundo de minha mochila.
Durante duas semanas eu pulava o muro da escola e ia vender balas no sinaleiro. Quando metade da caixa se foi, coloquei o dinheiro em um envelope improvisado com uma folha de caderno e deixei debaixo do travesseiro da minha mãe. Fiquei feliz por ter conseguido, mas logo ela descobriu; além de estranhar o dinheiro, certo dia, uma das freqüentadoras da Igreja disse que tinha me visto trabalhando na rua (aparentemente, na sala de aula e na escola, ninguém se importava com minha ausência). Sua reação foi o contrário do que eu esperava.
- Neném, - ela contém um choro - sua mãe está muito doente. Seu pai deve estar com problemas, não têm mandado dinheiro pra gente. Seu pai estaria orgulhoso. Eu também estou.
Ela retirou mais duas caixas daquelas balas, entregou pra mim e pranteou com o rosto afundado na almofada. Odeio ver ela chorar; peguei as caixas e fui para a rua. Trabalho dia e noite, mal consigo dormir. O serviço é bem cansativo, mas aos poucos vou conseguindo arrecadar um dinheiro. Guardava tudo no bolso. Agradecia muito cada drops vendido; gostava da idéia de lembrar de cada um dos rostos que sorriram para mim. Mas não era sempre assim; pessoas mal educadas às vezes mal levantavam o vidro. Em cinco dias, consegui todo o dinheiro para minha mãe. Eu mal conseguia enxergar, minhas energias estavam exauridas. Minhas pernas tremelicam e eu quase caio no chão, mas Joana pula da cama e me abraça muito apertado.
- Desculpe, meu filho, desculpe, desculpe sua mãe....eu nunca vou me perdoar... amanhã você volta pra escola, mamãe vai sarar e tudo vai ficar bem.
No outro dia eu estou na escola de novo. A professora, quase sem emoção, diz que eu estou de recuperação em todas as matérias pois faltei à semana de provas. Não liguei, aquele mundo não fazia mais sentido para mim. Na hora do recreio, roubei duas caixas de doces da cantina, pulei o muro e fui vender novamente. Achava que logo a gente iria precisar de mais dinheiro, caso meu pai não voltasse. Estava vendendo bem, várias vezes encontrava pessoas conhecidas. No terceiro dia, minha mãe ficou sabendo e ficou apavorada. Uma das vizinhas idiotas passou por mim na rua e gritou como uma louca.
- Moleque safado, tua mãe não quer te ver mais fazer isso! Para com isso e vai lá ver ela!
Não quis sair até que tivesse vendido tudo. Era fim da manhã, quase horário de saída do colégio e caia uma leve garoa. Em um momento, dois carros em alta velocidade furaram o sinal e quase me atropelaram. Meia hora depois, quando o sinal estava prestes a abrir e eu já tinha vendido todos os doces, presenciei mais um daqueles relâmpagos. Eu estava de costas, senti os músculos do meu pescoço amortecerem e fui jogado em direção a uma árvore. Minha mochila arrebentou e o material escolar se estraçalhou. Juntei o que pude e, com os olhos arregalados, corri para casa, sem olhar para trás. Cheguei morto de cansaço; havia quase uma semana que não comia direito e isso começava a se refletir em minha disposição. Carregava em meus braços os livros do primário dentro de mochila rasgada; os lápis, canetas e uma borracha enfiados no único bolso direito da calça do uniforme. Começou a chover muito. Parei na frente da minha casa e vi o desastre: o plástico do teto havia cedido. Achei tudo uma bela merda; larguei o material no chão que se espatifou na lama, tirei as coisas do meu bolso com uma raiva incontrolável e as arremessei em cima dos livros. Comecei a chorar. Ajoelhei no chão e senti a lama fria encharcar minhas canelas. Havia algo errado. Sempre que chovia, minha mãe me esperava com um guarda-chuva ou no portão do colégio ou, quando não dava tempo, na porta de casa. Gritei por ela até meus pulmões arderem. Não houve resposta. Eu quase havia sido morto e queria estar com a única pessoa com a qual eu me sentia protegido de verdade. A sensação que eu tinha, lá na rua dos relâmpagos, é que nada mais importava, desde que ela estivesse lá.