Num desses dias frios e chuvosos, num boteco de beira de estrada, um velho conhecido e companheiro acadêmico, o Pé-da-Maria, contava que conheceu o Musca quando ele dava cursos relâmpagos pros cuzidões sertanejos, bem ali naquele lugar, de como dar um murro bem dado na fuça dos ricardões que traçavam suas senhoras. Pé-da-Maria, já bem afoito por causa da pinga, pediu emprestado minha jaqueta de couro pra se parecer com meu pai e logo começou a se movimentar igual um boxeador com o tornozelo quebrado. O dono do boteco, o careca e obeso Saco-De-Rola, havia chamado para se juntar a nossa bebedeira alguns outros fregueses ainda vivos que também conheceram Musca e fizeram o famoso curso: o “andarilho barbeado” Roque Faroleiro, “o carteiro do azar” Iossário da Vinte-e-Dois, “o bugre pintado” Quintus Deodato Junior e o “cigano das três netas boas” Romano Dinheiro. todos já em seus octogenários. Meu comparsa Porpeta Bellucci, que havia sido o co-ministrante do curso, integrava a roda dos mamados juntamente com o citadino banqueiro Teobaldo Agiota e o catequizador cromado Padre Magnum . A voz atenuada e a tônica esticada no final das frases que Pé-da-Maria soltava durante a encenação fazia todo mundo se contorcer de rir nas cadeiras.
- É assim que tu dá um soco em alguém. O primeiro passo é mentalizar! Imagina e sinta um espinho do tamanho daquela caneta na orelha do Rola penetrando na tua medula oblonga. Pra quem não sabe o que é esse trocinho eu vou dizer: é um órgão lá no pé do cérebro e que faz um fio com a coluna. Depois, tu força todos os músculos do pescoço e da mandíbula enquanto já vai fechando a mão. Tu gira a cintura pro lado da mão que vai dar o presente pro filho da puta, usa o outro braço pra preparar terreno e se apóie com um pé só na meia-ponta, dobrando o joelho. Comece a cair pra frente, perca a visão, grite que nem um burro atolado e despeje tua ira como se ele tivesse trepado com tua mãe e tua irmãzinha pequena. Não esqueça de usar o peso do corpo como carga adicional! Dá direto na mandíbula um adeus pro ricardão!
Era final de tarde no pé da serra e a chuva havia começado após um dia inteiro de tempo fechado. Tudo o que tínhamos conversado até agora, após a performance de Pedro, era sobre armas antigas, desventuras com bebidas alcóolicas, putarias e chás medicinais. O churrasco de variados cortes de Saco de Rola foi apagando o efeito entorpecente de várias cervejas e doses de cana fermentada. Todo mundo baixou os ânimos em suas cadeiras e o saudosismo não tardou a chegar com uma certa melancolia.
Os nomes são sempre os melhores.
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