Em uma de minhas primeiras conversas com o velhote Magnum, fiquei surpreso ao saber que os Volvos não foram totalmente esquecidos pela literatura; pelo menos não pela histórica. Mostrou-me uma cópia de um livro editado pela Biblioteca Pública chamado “Grandes Discursos da Primeira Metade do Século XXI” onde, quase que miraculosamente, havia um trecho de um discurso proferido por Musca. Não era um livro muito grande, em sua maioria consistia em discursos usuais de burocratas do Brasil inteiro sobre investimentos do estado em educação e saúde ou grandes empresários de multinacionais vangloriando sua vinda ao país, mas entre todas essas grandes exposições de dezenas de páginas, é possível achar outras pequenas pérolas. Tendo emprestado o livro, tirei um dia apenas para ler as reclamações públicas de professores de escolas, manifestações de diretórios acadêmicos e registros revoltosos de líderes comunitários. Sobre o conteúdo destes, não me espanta que as reivindicações sejam quase as mesmas, sempre envolvendo pedido de verbas e conscientização por parte dos líderes políticos; o velho clichê que nunca teve uma funcionalidade satisfatória. Ao final do dia, cheguei até o um quarto de página onde residia o discurso de Volvos e, após ler, constatei que, ao meio de tanta “consciência social”, as palavras dele pareciam romanticamente vazias e utópicas. Entretanto, levando em consideração o que foi de fato atingido, posso afirmar com absoluta certeza que a importância prática dos discursos é inversamente proporcional à demonstrada no livro. Quando devolvi a coletânea para o velho, perguntei se foi por influência dele que as palavras de Papo haviam sido selecionadas para a publicação, ao que me respondeu indignadamente que este trecho especificamente não havia sido escrito por ele; os créditos no capítulo final sobre as referências não traziam o nome Musca Volvos – na verdade, não havia referência alguma. Contestando minha falta de percepção do contraste de linguagem existente entre os manuscritos agora em minha posse e o discurso, revelou-me que foi ele mesmo que escreveu - pedido pessoal em um de seus encontros com Volvos - o trecho publicado, mas não quis que seu nome fosse citado pois isto poderia, aviso dos promotores da justiça, acarretar em exoneração do seu cargo na biblioteca. Falou-me novamente da ‘sanguinária’ acidental discussão de Musca com o anterior louvado secretário da cultura, da repulsa dos literatos à figura do agressor e a posterior emenda constitucional legislando a proibição de publicações relacionadas aos Volvos. Não poderia, por ser um fiel adepto da filosofia ‘Volvesca’, deixar de subverter a montagem do livro da qual a sua biblioteca fez parte e, dentro de certos limites, remeter, ainda que sutilmente e com simbologias histórico-literárias, à algo muito maior que foi a conjuração dos Volvos. Antes de esclarecer devidamente todo o contexto envolvido no trecho publicado (inclusive com um manuscrito contendo a transcrição integral do discurso gravado em áudio digital), recitou epicamente e de cor sua parte no discurso enquanto recordo todas as palavras.
“(...) Concordo que em nossa época iniciou-se um tempo de decadência moral, onde o pai ensina o filho a baixar a cabeça para os vampiros burocratas e seus acessores mercenários, estes, ascendentes dum estilo de vida superficial travestido da mais insonora e ignorante felicidade, uma ilusão inspirada puramente na covardia e fracasso ante à honra gentil, se comparados à verdadeira e altruísta raça forte brasileira. Ao inferno as novas mães por propagar filosofias centristas das avarentas e desdenhosas personalidades anglo-francesas, onde as pessoas não são mais capazes de manter sua palavra, traindo sua própria sinceridade sob o infame capuz dos que perecem para o próprio medo e que usam, dissimuladamente, releituras egoístas sobre o livre-arbítrio. Foi preciso uma vida de andanças pelas cidades, sertões, florestas, pedras e areias para encontrar e conectar os homens de verdade, cérebros que carregam a messiânica personalidade feroz e generosa do insurgente mulato e do tupinambá, guerreiros cuja honra remete aos valentes fidalgos sebastianistas, antigos, porém contemporâneos, pois seu coração é inexpugnável e belo como um colete de aramida e ouro, bombeando o sangue da história e do respeito por ela’ (...)”.
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