domingo, 7 de agosto de 2011

Águia Dourada (2008)

Tem dias que eu rezo pra que aconteça alguma coisa diferente, porque depois de tanto tempo na mesma correria, até aquele cagaço que tu sente cada vez que vai resolver um trabalho pesado, daqueles que te deixa churingado por uma semana, acaba ficando monótono.

 Lá fora, a onda de calor empurra as pessoas para o chão e as secam pra a terra reabsorver toda a água. E,, suando, com o braço engordurado de suor em cima do meu bloco de notas, estou focado na lâmpada fraca de 60 velas pendurada a 30 centímetros do teto faz vários minutos; é a coisa mais luminosa que me vem à mente. Meus olhos apresentam diversas manchas escuras psicodélicas. Meus outros três camaradas – Agiota, Teobaldo e OTAN, cada um no seu quadrante da saletinha, ficam trocando umas caretas e umas bufadas. Já tá desse jeito faz uma meia hora; batidas de caneta, coçadas de saco, fungadas, catarradas, pele marcada de quina de escrivaninha. Fazia um tempo que a gente não ficava com um mínimo de estresse mental no trabalho. Um cara veio aqui e pediu pra gente resolver um negócio urgente pra um figurão aí. Não falou o que era, só que ele era importante e que contava com a segurança do nosso serviço. Algum idiota recomendou a gente pra esse figurão, só pode ser. O pombo dele tá ali fora, na porta, com um celular na mão, pronto pra confirmar o contrato. Mas Agiota sabe das coisas:

- Sem chance. A gente precisa de mais grana mas se a gente entrar nessa a gente toma no cú bonito.

Essas coisas de contrato são complicadas. O trabalho que o figurão quer que a gente faça não é do bom. Normalmente não se aceita bisbilhotagem; é cilada, serviço muito perigoso pra pouco dinheiro. É tudo uma questão de confiança e eu tenho orgulho de dizer que a nossa tá cem por cento. Aqui no papel diz que o contratante é um tal de Águia Dourada. Ele deve achar que somos uns piazotes idiotas. Alguém tem que avisar ele que tem gente que trabalha só com isso, eu mesmo poderia indicar vários. Agora, quem indicou a gente pro contratante, esse sim merece um trato. Minha vontade é de sair ali no corredor e bater no piá dele com meu furador de papel do Paraguai. Mas deixa pra lá, o coitado nem tem culpa da estupidez dos outros.

- A gente não precisa de grana? Tamo morto, rapaziada.

O pau-mandado bate três vezes na porta. Acho que o tal do Águia tá com pressa. Uma hora pro outro dia e ele quer o negócio feito pra ontem. Mas não vai adiantar insistir, tanto que nem li o resto do contrato. OTAN, meu caçula, faz a primeira cara de reprovação. Teobaldo negativa com a cabeça. Porpeta não gosta, mas concorda.

- Cuzões.

Porpeta cospe uma tampa de caneta azul que eu nem sabia que tava mastigando. Ele vai dispensar o moleque, mas demora pra levantar pois já deve tá nos seus cento e cinqüenta quilos. Cada passo até o destino parece bem doído. Ele tira um lenço do bolso e limpa o sebo do rosto antes de abrir a porta. OTAN está esfregando o olho e Agiota tá arrumando suas gavetas, então eles não percebem que o mensageiro não tá mais ali; eu vejo os olhos do Porpeta procurando e o encontrando em algum lugar longe do casebre.

- Seus velhos cabaços! Já falei pro Águia Dourada que cês aceitaram! Tão fudidos!

Sabia que ia acontecer uma merda assim, a gente sente no ar.

Vamos foder com a vida desse Águia!

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